
Epígrafe: "O problema de viver no piloto automático é que a sua biografia acaba parecendo a última temporada de uma série cancelada: cheia de acontecimentos, mas sem nenhuma motivação real."
Gosto muito de ouvir o Nerdcast nas minhas andanças e caminhos diários, e recentemente o Azaghal soltou uma crítica cirúrgica sobre a falta de criatividade na última temporada de The Boys. Ele usou uma expressão em inglês que resume perfeitamente a falta de profundidade de certos personagens: "Because of Reasons" (algo como "Por motivos de... motivos", ou o nosso bom e velho "Porque sim").
É aquele momento em que a personagem Sábia olha para o caos e diz: "Tudo aconteceu exatamente como eu previa", sem que o roteiro nos dê uma pista de como aquilo seria possível. Ou quando o Capitão Pátria — que poderia pulverizar os rapazes em dois segundos — resolve poupar seus inimigos mortais sem critério nenhum. A gente até passa um pano pro herói mimado, fingindo que é o último resquício de humanidade dele buscando um adversário à altura, mas no fundo a gente sabe o nome disso: preguiça dos roteiristas. Eles precisam que a história continue, então as coisas acontecem... because of reasons.
Mas enquanto eu tomava banho para correr para o trabalho, o insight bateu forte: será que muita gente não está vivendo a própria vida exatamente assim? No modo Because of Reasons?
O Roteiro da Vida Automática
Repare ao seu redor (ou no seu próprio espelho em dias ruins). Quantas pessoas você conhece que simplesmente vão empurrando os dias, aceitando casamentos falidos, empregos medíocres e rotinas massacrantes sem conseguir verbalizar o porquê estão ali?
Se você perguntar para o sujeito por que ele escolheu aquela carreira, ou por que ele gasta quatro horas do dia rolando a tela do celular, a resposta real e subconsciente dele é um eco dos roteiristas de The Boys: "Ah, sei lá... porque sim". Falta motivação, falta protagonismo, falta profundidade. A pessoa virou um figurante na própria história, movido pelas conveniências do ambiente.
O que a Filosofia diz sobre o "Porque Sim"
Essa nossa tendência de viver no automático sem encarar os motivos das nossas escolhas não é nova, e grandes pensadores já se debruçaram sobre esse "vazio narrativo" da existência:
Albert Camus e o Absurdo: Camus dizia que a maioria de nós vive numa rotina mecânica: acorda, pega o bonde, trabalha quatro horas, almoça, pega o bonde, trabalha mais quatro horas, janta, dorme... segunda, terça, quarta... O problema é quando, de repente, o cenário desaba e a pergunta surge: "Por quê?". Para Camus, viver no Because of Reasons é tentar ignorar o absurdo da existência, operando como robôs até que a crise de identidade bata à porta.
Jean-Paul Sartre e a "Má-Fé": Sartre ia ainda mais fundo. Para ele, o ser humano é "condenado a ser livre". Nós somos os únicos roteiristas do nosso destino. Quando a gente finge que não tem escolha, que "a vida é assim mesmo" e que estamos apenas seguindo o fluxo, estamos agindo com o que ele chamava de Má-Fé. É quando o personagem finge que é apenas um objeto inanimado para fugir do peso e da angústia de ter que tomar as rédeas da própria narrativa.
Reescrevendo a Última Temporada
A grande diferença entre nós e o Capitão Pátria é que nós não temos um painel de roteiristas em Hollywood decidindo quando vamos ter um surto de bondade ou uma virada de chave. Se a sua vida hoje parece um episódio arrastado, onde as coisas acontecem sem que você saiba muito bem o motivo, talvez seja a hora de rasgar o script do Because of Reasons.
Dá trabalho dar motivação real aos nossos atos. Exige parar, pensar, questionar o óbvio e, às vezes, tomar decisões desconfortáveis. Mas é o único jeito de garantir que, quando os créditos finais subirem, a gente tenha vivido uma história que realmente valeu a pena assistir.
E você? Tá agindo por um propósito real ou só because of reasons?
