
Epígrafe: "O problema de quem se informa por memes de WhatsApp é achar que o mundo começou ontem. Spoiler: a ciência já estava lendo o manual do Coronavírus enquanto você ainda debatia o final de Game of Thrones."
Dia desses, no meio de um papo ameno sobre os avanços da medicina moderna (especificamente sobre medicações revolucionárias como o Mounjaro), eis que ressurge das cinzas aquela velha e mofada lebre negacionista: “Ah, mas essa medicação levou anos de estudo... não foi igual à vacina da Covid, que criaram em 11 meses do nada por causa de uma pandemia inventada”.
Nessas horas, a gente respira fundo, lembra das contas para pagar, desvia o assunto com elegância diplomática e engole o nó na garganta. Mas a verdade precisa ser dita, nem que seja aqui no blog: Senhores negacionistas, se vocês se esforçarem só um pouquinho, dá para deixar de ser motivo de chacota.
A teoria de que a vacina da Covid foi "feita às pressas e sem testes" desmorona com um simples exercício de memória pop. Mais especificamente, voltando para o dia 19 de agosto de 2016.
O Oráculo de 2016
Se você puxar no seu agregador de podcasts o Nerdcast 528 - À Beira da Extinção, gravado quatro anos antes do mundo fechar as portas, vai presenciar uma aula de microbiologia que envelheceu como vinho (ou como um aviso profético).
Naquele episódio, o jovem Alexandre Ottoni perguntou ao biólogo e pesquisador Átila Iamarino qual seria o gatilho biológico mais provável para colocar a humanidade de joelhos. A resposta do Átila foi imediata: “A gripe”.
Mas ele não parou por aí. Ao destrinchar como os vírus funcionam e como a comunidade científica monitorava as ameaças globais, o Átila explicou os trabalhos que já vinham sendo feitos com a MERS (aquela infecção respiratória conhecida como o "coronavírus dos camelos"). E, sim, ele citou nominalmente a família do Corona como um perigo iminente. Em 2016.
Corrida de 11 meses, treino de décadas
O erro crasso do negacionismo é achar que os cientistas descobriram o que era um Coronavírus em março de 2020, se trancaram num porão com alguns tubos de ensaio e saíram de lá em novembro com uma seringa na mão.
A verdade científica é muito menos misteriosa e muito mais fantástica:
A base já estava pronta: A tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) e os estudos de mapeamento genético de coronavírus (como o SARS de 2002 e a MERS de 2012) já tinham décadas de estrada.
O motor já estava ligado: Os cientistas já conheciam a estrutura da famosa proteína Spike (a "chave" que o vírus usa para entrar nas nossas células). Eles só precisaram trocar o código antigo pelo código do novo inimigo (o SARS-CoV-2).
Dinheiro infinito: O que costuma demorar dez anos no desenvolvimento de um remédio é a falta de verba e a burocracia para conseguir voluntários. Em 2020, o mundo inteiro injetou bilhões de dólares simultaneamente e bilhões de pessoas se voluntariaram.
Dizer que a vacina foi "rápida demais e por isso é suspeita" é o equivalente a ver um piloto de Fórmula 1 trocar quatro pneus em 2 segundos e dizer: “Impossível! No borracheiro da minha rua demora meia hora, isso aí é montagem!”. Não é montagem, meu caro. É treinamento, estrutura e foco absoluto.
Arrependam-se (da ignorância)
Estudar o passado serve justamente para a gente não passar vergonha no presente. O coronavírus não foi inventado em um laboratório secreto de vilão de cinema em 2020; ele já era o pesadelo acordado dos microbiologistas há muito tempo.
Então, fica o conselho amigável: antes de levantar a tese da conspiração global no cafezinho do trabalho, gaste dez minutinhos no Google. Ou, se a leitura estiver difícil, dê o braço a torcer e vá ouvir o Nerdcast de dez anos atrás. Quem sabe assim o pessoal pare de rir pelas suas costas enquanto você toma seu café.







