Existem coisas que só a rotina do trabalho e a dinâmica do home office conseguem nos proporcionar. Dias atrás, enquanto resolvia à distância um pequeno mistério técnico com o nosso gerenciador de impressoras, mandei um sincero e informal "Valeu, meu truta!" para o colega que foi checar o equipamento físico no corredor.
Em questão de segundos, outro colega já respondia no grupo de mensagens com a foto de uma vistosa truta de água doce.
A piada rápida me fez parar para pensar na rica — e por vezes duvidosa — taxonomia aquática que aplicamos às relações humanas no ambiente de trabalho. Se analisarmos sob a ótica da biologia popular de escritório, a fauna corporativa divide-se essencialmente em duas espécies marcantes:
1. A Truta (Salmo trutta)
A truta é um peixe associado a águas limpas, correntes e de boa visibilidade. No ecossistema do setor, o "truta" é aquele sujeito ponta firme. É quem vai até o equipamento físico verificar o status quando você está remoto, é quem segura a ponta quando o sistema decide instabilizar e quem mantém a engrenagem girando com lealdade. O truta é parceiro; sua presença traz fluidez e alívio para o plantão.
2. A Traíra (Hoplias malabaricus)
Em contrapartida, a traíra é um predador voraz de água doce, conhecido por seus dentes afiados, hábitos carnívoros e por se esconder nas sombras e na vegetação densa à espera da melhor oportunidade.
No jargão da firma, a alcunha costuma surgir naquela despedida clássica: quando o sujeito finalmente consegue a remoção, a redistribuição ou passa em um concurso melhor e troca de setor ou órgão. "Lá vai o traíra...", diz a zoeira coletiva no café. Ele nos deixa para trás enfrentando os chamados, os editais e os contratos de suprimentos, enquanto migra para águas aparentemente mais tranquilas.
A grande beleza da linguagem informal está nessa ironia. "Truta" é o elogio da lealdade diária no front. "Traíra" é a acusação afetuosa (e levemente invejosa) de quem teve a audácia de evoluir ou mudar de ar.
No fim das contas, todos nós navegamos por essas mesmas correntes. Ora somos a truta que socorre o colega no meio da tarde, ora somos a traíra em potencial ajustando as velas para o próximo destino.
Nota do autor: Qualquer semelhança com a vida real, grupos de mensagens do setor ou trocas de departamento não é mera coincidência. Mas fiquem tranquilos: este post não é sobre peixes.






