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Tentando tapar os buracos na minha cabeça...
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quarta-feira, junho 03, 2026

🦸‍♂️ Because of Reasons: Você está vivendo ou só sendo escrito por um roteirista preguiçoso?

 
Epígrafe: "O problema de viver no piloto automático é que a sua biografia acaba parecendo a última temporada de uma série cancelada: cheia de acontecimentos, mas sem nenhuma motivação real."

Gosto muito de ouvir o Nerdcast nas minhas andanças e caminhos diários, e recentemente o Azaghal soltou uma crítica cirúrgica sobre a falta de criatividade na última temporada de The Boys. Ele usou uma expressão em inglês que resume perfeitamente a falta de profundidade de certos personagens: "Because of Reasons" (algo como "Por motivos de... motivos", ou o nosso bom e velho "Porque sim").

É aquele momento em que a personagem Sábia olha para o caos e diz: "Tudo aconteceu exatamente como eu previa", sem que o roteiro nos dê uma pista de como aquilo seria possível. Ou quando o Capitão Pátria — que poderia pulverizar os rapazes em dois segundos — resolve poupar seus inimigos mortais sem critério nenhum. A gente até passa um pano pro herói mimado, fingindo que é o último resquício de humanidade dele buscando um adversário à altura, mas no fundo a gente sabe o nome disso: preguiça dos roteiristas. Eles precisam que a história continue, então as coisas acontecem... because of reasons.

Mas enquanto eu tomava banho para correr para o trabalho, o insight bateu forte: será que muita gente não está vivendo a própria vida exatamente assim? No modo Because of Reasons?

O Roteiro da Vida Automática

Repare ao seu redor (ou no seu próprio espelho em dias ruins). Quantas pessoas você conhece que simplesmente vão empurrando os dias, aceitando casamentos falidos, empregos medíocres e rotinas massacrantes sem conseguir verbalizar o porquê estão ali?

Se você perguntar para o sujeito por que ele escolheu aquela carreira, ou por que ele gasta quatro horas do dia rolando a tela do celular, a resposta real e subconsciente dele é um eco dos roteiristas de The Boys: "Ah, sei lá... porque sim". Falta motivação, falta protagonismo, falta profundidade. A pessoa virou um figurante na própria história, movido pelas conveniências do ambiente.

O que a Filosofia diz sobre o "Porque Sim"

Essa nossa tendência de viver no automático sem encarar os motivos das nossas escolhas não é nova, e grandes pensadores já se debruçaram sobre esse "vazio narrativo" da existência:

  • Albert Camus e o Absurdo: Camus dizia que a maioria de nós vive numa rotina mecânica: acorda, pega o bonde, trabalha quatro horas, almoça, pega o bonde, trabalha mais quatro horas, janta, dorme... segunda, terça, quarta... O problema é quando, de repente, o cenário desaba e a pergunta surge: "Por quê?". Para Camus, viver no Because of Reasons é tentar ignorar o absurdo da existência, operando como robôs até que a crise de identidade bata à porta.

  • Jean-Paul Sartre e a "Má-Fé": Sartre ia ainda mais fundo. Para ele, o ser humano é "condenado a ser livre". Nós somos os únicos roteiristas do nosso destino. Quando a gente finge que não tem escolha, que "a vida é assim mesmo" e que estamos apenas seguindo o fluxo, estamos agindo com o que ele chamava de Má-Fé. É quando o personagem finge que é apenas um objeto inanimado para fugir do peso e da angústia de ter que tomar as rédeas da própria narrativa.

Reescrevendo a Última Temporada

A grande diferença entre nós e o Capitão Pátria é que nós não temos um painel de roteiristas em Hollywood decidindo quando vamos ter um surto de bondade ou uma virada de chave. Se a sua vida hoje parece um episódio arrastado, onde as coisas acontecem sem que você saiba muito bem o motivo, talvez seja a hora de rasgar o script do Because of Reasons.

Dá trabalho dar motivação real aos nossos atos. Exige parar, pensar, questionar o óbvio e, às vezes, tomar decisões desconfortáveis. Mas é o único jeito de garantir que, quando os créditos finais subirem, a gente tenha vivido uma história que realmente valeu a pena assistir.

E você? Tá agindo por um propósito real ou só because of reasons?

sábado, junho 21, 2025

Sartre, aniversários e a dedicatória esquecida de 2007

 📅 21 de junho

No mesmo dia em que vim ao mundo, nasceu também Jean-Paul Sartre.
É possível — e provável — que essa seja a única coincidência relevante entre nós. Mas já é algo.
Ele, filósofo existencialista que escreveu para provocar, pensar e transformar.
Eu, um curioso que insiste em sublinhar livros, colecionar perguntas e escrever posts em datas simbólicas.

Hoje, no dia em que celebro mais um ano, decidi revisitar Sartre — não só pelo calendário, mas por aquele tipo de sincronia secreta que às vezes acontece entre a vida e os livros. E talvez também por uma dedicatória esquecida.


📚 Filósofo, escritor, dissidente — e relutante celebridade
Sartre não aceitava rótulos fáceis.
Se recusou ao Nobel de Literatura (“nenhum homem merece ser transformado em instituição viva”), escreveu peças, romances e tratados filosóficos — sempre tentando dissolver as barreiras entre teoria e prática, entre liberdade e responsabilidade.
Sua vida foi feita de escolhas radicais: recusou cátedras, preferiu panfletos à fama e viveu um amor livre (e controverso) com Simone de Beauvoir, sua parceira intelectual e afetiva.

Ler O Ser e o Nada exige fôlego. Ler A Náusea exige estômago. Mas há algo em Sartre que recompensa: ele não promete respostas — só o direito de fazer as perguntas certas.


📝 Aline, 2007, e um livro que esperava por mim
Há alguns anos, encontrei um exemplar usado de Entre Quatro Paredes, peça curta e brutal, que termina com a frase: “O inferno são os outros.”
Na primeira página, uma dedicatória:
“Para você, Aline. Que esses personagens te façam pensar. 06.2007”
A letra, torta. A tinta, já quase apagada.
E Aline, ao que tudo indica, se desfez do presente — ou o esqueceu em alguma mudança.

Hoje, esse livro está na minha estante.
E mesmo sem saber quem o escreveu, nem por que Aline o deixou, sinto que carrego uma espécie de missão: dar continuidade ao gesto interrompido. Ler o que foi oferecido. E passar adiante o que valer a pena.


🎂 O que fazer com o que a vida fez de nós?
Sartre acreditava que a existência precede a essência.
Que somos o que escolhemos ser — apesar do mundo, apesar dos outros, apesar de nós mesmos.
No dia do meu aniversário, essa ideia ressoa com força: não é sobre o que me aconteceu, mas sobre o que eu farei disso daqui em diante.

E por isso encerro com uma das frases que mais me acompanham:

"Não importa o que a vida fez de você, mas o que você faz com o que a vida fez de você."

Que ela sirva de presente.
Para mim, por estar aqui.
Para você, que me lê.
E para Aline — onde quer que esteja.

🌌 O Mito do Gênio Solitário: Por que até Einstein precisou de um "trabalho em grupo"?

  Epígrafe: "Nenhum cérebro é uma ilha. Se o maior gênio do século XX precisou pedir cola para a turma da matemática, talvez seja a ho...