
Aviso de utilidade pública (e literária)
Antes de ler, um esclarecimento: o texto a seguir é uma obra de ficção (com um pezinho na realidade). Quem me conhece sabe que é praticamente impossível eu passar doze horas em silêncio. Se não for falando português, estarei praticando meu "Cearol" (dialeto oficial das conversas com meu pai) ou batendo um papo filosófico com os passarinhos e o gato do vizinho que insistem em frequentar o meu jardim do telhado.
Mas, em um desses dias estranhos de início de ano, a lógica falhou. E o resultado foi este:
O Dia em que não falei Português
A madrugada ainda era uma mancha cinzenta lá fora quando o despertador, sem piedade, interrompeu o silêncio. O ritual foi mecânico, quase ritualístico: o chuveiro quente para espantar o frio da alma, o aroma do primeiro café da manhã e o brilho azulado da tela do computador. Antes mesmo que o mundo ao redor desse sinal de vida, eu já estava imerso em outro universo. “Der Apfel ést rot”, repetia eu para o celular, enquanto os algoritmos do Duolingo validavam minha pronúncia germânica. Naquele momento, às cinco e meia da manhã, eu não sabia, mas aquelas seriam as últimas palavras articuladas que sairiam da minha boca por um longo, longo tempo.
Subi para o escritório. O início de ano no home office é um território implacável de planilhas, e-mails acumulados e demandas silenciosas que piscam na tela. O relógio avançava, mas a voz permanecia guardada. Por uma dessas coincidências estatísticas raras, nenhuma reunião foi agendada. Nenhum cliente ligou. Ninguém solicitou uma chamada de vídeo "rapidinha". Eu era um náufrago em uma ilha de silício, cercado por uma casa que, paradoxalmente, estava cheia de gente.
Perto das sete, a necessidade de cafeína gritou mais alto. Desci as escadas e encontrei a sala ocupada. Meu pai e minha irmã já orbitavam por ali, despertando para a rotina. Em uma casa normal, haveria um "bom dia". Na nossa, a comunicação transcende a gramática. Passei por eles e soltei apenas um "pisst", um som gutural, meio "hunf", meio chiado, que servia como reconhecimento de território e saudação universal. Eles entenderam. Ninguém disse nada. O barulho da Dolce Gusto preparando o expresso foi o som mais eloquente daquela manhã.
Voltei para o meu casulo. O dia transcorreu entre cliques e digitação. Cruzei com pessoas no corredor, fiz sinais de positivo para perguntas que não cheguei a ouvir e aceitei um prato de comida com um aceno de cabeça digno de um monge beneditino. Eu estava presente, mas era um estrangeiro dentro de casa. As palavras em português estavam todas estocadas na minha mente, mas as cordas vocais pareciam ter entrado em greve.
Foi só ao final do expediente, quando o sol já se punha e o silêncio do escritório se tornava pesado, que a ficha caiu. Eu estava acordado há mais de doze horas. Tinha resolvido problemas complexos, escrito centenas de linhas de texto e interagido com meia dúzia de pessoas. No entanto, ao recapitular o dia, percebi a bizarrice da minha existência: em solo brasileiro, dentro de uma casa com uma família numerosa e barulhenta, a única língua que eu havia efetivamente falado — em som, volume e articulação — fora o alemão.
Eu não tinha falado português o dia inteiro. Eu era um homem que, por doze horas, só existiu verbalmente para dizer que a maçã é vermelha e que o menino come o pão em uma língua estrangeira.
E acho que a vida, às vezes pode ser só isso: um jogo de silêncios compartilhados onde, às vezes, a gente só descobre que ainda tem voz quando tenta pronunciar uma palavra cheia de consoantes no escuro do escritório.
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