Declus

Tentando tapar os buracos na minha cabeça...

sábado, janeiro 10, 2026

🕰️ O Sussurro das 3:33: Por que paramos de esperar?

 
Epígrafe: "Prescinde o dia da conversa da espera de algo melhor"

Existem momentos em que a nossa mente parece cansada da nossa superficialidade diurna e resolve nos dar uma "sacudida" enquanto dormimos. Hoje, às 3:33 da manhã — naquele horário em que o mundo parece suspenso entre o ontem e o amanhã —, acordei com uma frase nítida ecoando no ouvido: "Prescinde o dia da conversa da espera de algo melhor".

Não é uma frase que eu usaria em um café da manhã ou no meu "cearol" cotidiano. Mas, ao sentar na cama e digerir as palavras, percebi que meu inconsciente havia acabado de me entregar um manifesto contra a Síndrome da Sala de Espera (como sempre, este não é um diagnóstico formal de nada, apenas a constatação de um comportamento comum).

A Tirania do "Quando"

Viver na "espera de algo melhor" é a maior armadilha do século XXI. Passamos o dia de hoje imaginando como o dia de amanhã será incrível quando o prêmio da Mega sair, quando o alemão estiver fluente, ou quando o projeto do trabalho terminar.

Nessa expectativa, nós prescindimos (dispensamos, abrimos mão) da "conversa do dia".

E o que é a "conversa do dia"? É a realidade nua e crua. É o café que você toma agora, o "pisst" que você solta para o seu pai na sala, o gato do vizinho que visita o seu telhado. É o diálogo que a vida está tentando ter com você neste exato momento, mas que você ignora porque está com os fones de ouvido sintonizados em um futuro hipotético.

O Valor do Agora Imperfeito

A frase que me acordou é um comando: dispenso a espera. Quando abrimos mão de que o momento presente seja apenas uma ponte para algo "melhor", a conversa flui. O dia deixa de ser um fardo ou um degrau e passa a ser o destino final.

Muitas vezes, a busca pelo "melhor" é o que nos impede de viver o "bom". Ficamos tão focados em ajustar o grau dos nossos óculos (lembrando do post sobre Quixote) para ver o gigante lá longe, que não percebemos que a beleza está no moinho que gira bem na nossa frente.

Uma Reflexão para o Café da Manhã

Ter recebido esse "insight" de forma tão simbólica e em uma linguagem tão fora do meu padrão é um lembrete de que a sabedoria já habita em nós; o barulho do dia é que nos impede de ouvi-la.

Se você também acordou hoje sentindo que a sua vida é um ensaio para algo que ainda vai acontecer, tente fazer o exercício que a minha mente me impôs na madrugada: prescinda da espera.

A conversa de hoje, por mais simples que seja, já é o "algo melhor" que você tanto aguardava.

Epílogo: Um choque de realidade (ou de PDF)

Depois de algumas xícaras de café e de colocar os pés no chão, a ficha finalmente caiu. A palavra "prescindir", que soou como um oráculo grego às 3:33 da manhã, não veio de um plano astral superior. Ela veio do meu Vade Mecum.

Percebi que, embora eu não use "prescindir" nem para pedir um pão na chapa, ela é uma figurinha carimbada nos textos de lei e editais que eu devoro nos meus estudos para concursos.

Conclusão? Meu inconsciente não virou um filósofo transcendental; ele só está sofrendo de uma overdose de PDFs. O recado da madrugada foi mais direto do que eu pensava: "Oxi, descansa um pouco, porque quando a letra da lei começa a ditar os seus sonhos, é sinal de que a sua cabeça está precisando — com urgência — prescindir de tanta matéria!"

terça-feira, janeiro 06, 2026

🍞 DAS BROT.

 
Aviso de utilidade pública (e literária)

Antes de ler, um esclarecimento: o texto a seguir é uma obra de ficção (com um pezinho na realidade). Quem me conhece sabe que é praticamente impossível eu passar doze horas em silêncio. Se não for falando português, estarei praticando meu "Cearol" (dialeto oficial das conversas com meu pai) ou batendo um papo filosófico com os passarinhos e o gato do vizinho que insistem em frequentar o meu jardim do telhado.

Mas, em um desses dias estranhos de início de ano, a lógica falhou. E o resultado foi este:


O Dia em que não falei Português

A madrugada ainda era uma mancha cinzenta lá fora quando o despertador, sem piedade, interrompeu o silêncio. O ritual foi mecânico, quase ritualístico: o chuveiro quente para espantar o frio da alma, o aroma do primeiro café da manhã e o brilho azulado da tela do computador. Antes mesmo que o mundo ao redor desse sinal de vida, eu já estava imerso em outro universo. Der Apfel ést rot, repetia eu para o celular, enquanto os algoritmos do Duolingo validavam minha pronúncia germânica. Naquele momento, às cinco e meia da manhã, eu não sabia, mas aquelas seriam as últimas palavras articuladas que sairiam da minha boca por um longo, longo tempo.

Subi para o escritório. O início de ano no home office é um território implacável de planilhas, e-mails acumulados e demandas silenciosas que piscam na tela. O relógio avançava, mas a voz permanecia guardada. Por uma dessas coincidências estatísticas raras, nenhuma reunião foi agendada. Nenhum cliente ligou. Ninguém solicitou uma chamada de vídeo "rapidinha". Eu era um náufrago em uma ilha de silício, cercado por uma casa que, paradoxalmente, estava cheia de gente.

Perto das sete, a necessidade de cafeína gritou mais alto. Desci as escadas e encontrei a sala ocupada. Meu pai e minha irmã já orbitavam por ali, despertando para a rotina. Em uma casa normal, haveria um "bom dia". Na nossa, a comunicação transcende a gramática. Passei por eles e soltei apenas um "pisst", um som gutural, meio "hunf", meio chiado, que servia como reconhecimento de território e saudação universal. Eles entenderam. Ninguém disse nada. O barulho da Dolce Gusto preparando o expresso foi o som mais eloquente daquela manhã.

Voltei para o meu casulo. O dia transcorreu entre cliques e digitação. Cruzei com pessoas no corredor, fiz sinais de positivo para perguntas que não cheguei a ouvir e aceitei um prato de comida com um aceno de cabeça digno de um monge beneditino. Eu estava presente, mas era um estrangeiro dentro de casa. As palavras em português estavam todas estocadas na minha mente, mas as cordas vocais pareciam ter entrado em greve.

Foi só ao final do expediente, quando o sol já se punha e o silêncio do escritório se tornava pesado, que a ficha caiu. Eu estava acordado há mais de doze horas. Tinha resolvido problemas complexos, escrito centenas de linhas de texto e interagido com meia dúzia de pessoas. No entanto, ao recapitular o dia, percebi a bizarrice da minha existência: em solo brasileiro, dentro de uma casa com uma família numerosa e barulhenta, a única língua que eu havia efetivamente falado — em som, volume e articulação — fora o alemão.

Eu não tinha falado português o dia inteiro. Eu era um homem que, por doze horas, só existiu verbalmente para dizer que a maçã é vermelha e que o menino come o pão em uma língua estrangeira

E acho que a vida, às vezes pode ser só isso: um jogo de silêncios compartilhados onde, às vezes, a gente só descobre que ainda tem voz quando tenta pronunciar uma palavra cheia de consoantes no escuro do escritório.

🕰️ O Sussurro das 3:33: Por que paramos de esperar?

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