Declus

Tentando tapar os buracos na minha cabeça...

quinta-feira, abril 30, 2026

📱 O Tédio é uma Porta (E o Scroll é a Tranca)

Epígrafe: "O tédio é a raiz de todo o mal — a recusa desesperada de ser si mesmo."Søren Kierkegaard (adaptado de Ou isto, ou aquilo)

Estamos em casa, o trabalho está em ritmo de feriado, e o silêncio se instala. De repente, um desconforto. Não é fome, não é sono. É o tédio. Automaticamente, a mão alcança o smartphone. Em dois segundos, estamos mergulhados em vídeos de receitas que nunca faremos ou polêmicas de pessoas que nem conhecemos.

O que acabamos de fazer tem nome, e um filósofo dinamarquês chamado Kierkegaard já explicava isso lá em 1843, muito antes do primeiro sinal de Wi-Fi.

O "Método de Rotação"

Kierkegaard dizia que o ser humano sofre de um pavor existencial do vazio. Para fugir do tédio, a gente usa o que ele chamava de Método de Rotação.

Na época dele, isso significava mudar de cidade, começar um novo hobby ou trocar de círculo social assim que as coisas ficavam "mornas". Hoje, a gente faz isso em microescala: mudamos de aba, rotacionamos de app, saltamos de um Reels para outro. O objetivo é o mesmo: anestesiar a percepção do tempo.

Ócio Criativo vs. Fuga Digital

Muita gente confunde Kierkegaard com o Ócio Criativo do Domenico De Masi. Mas há uma diferença crucial:

  • O Ócio Criativo é ativo: é dar espaço para a mente processar ideias e ter o "estalo" da inovação.

  • O Scroll Infinito é passivo: é uma alimentação forçada de estímulos que impede a mente de sequer começar a pensar.

Para Kierkegaard, o tédio é perigoso porque é a "raiz de todo o mal", mas ele também é uma oportunidade. É no tédio que a gente é forçado a olhar para dentro. Quando a gente "mata" o tédio com o scroll, a gente está, na verdade, fugindo de nós mesmos.

O Desafio do Vazio

Estar entediado no home office em plena véspera de feriado é um luxo perigoso. É o momento em que a criatividade poderia surgir — aquela ideia para um post, um projeto pessoal ou apenas uma reflexão profunda sobre o porquê de estarmos aqui.

Mas a rede social é o "tapa-buraco" perfeito. Ela nos dá a sensação de que estamos fazendo algo (consumindo informação), enquanto estamos apenas girando a manivela da dopamina barata.

Talvez o segredo não seja buscar o ócio para produzir algo, mas apenas aguentar o tédio por dez minutos sem tocar no celular. Kierkegaard diria que esse é o primeiro passo para a liberdade. Eu digo que é o primeiro passo para não chegar no fim do feriado sentindo que o tempo simplesmente "escorreu pelo ralo".

domingo, abril 12, 2026

🚀 Raul Seixas estava certo: Eu nasci há 10 mil anos (luz) atrás

 

Epígrafe: "— Vocês estão juntos há quanto tempo? — Há 186,3 anos. — Nossa, isso é muito tempo! — Não o suficiente." > — mais ou menos o diálogo entre Ryland Grace e Rocky, em "Devoradores de Estrelas"

Recentemente, ouvindo o pessoal do Nerdcast falar sobre a adaptação de Devoradores de Estrelas (ou Project Hail Mary, para os puristas), fui transportado de volta àquela sensação de pequenez que só um bom livro de ficção científica proporciona. No diálogo entre o humano Ryland Grace e o alienígena Rocky, a noção de tempo transborda o relógio e vira sentimento.

Mas como explicar para um habitante de outro sistema solar o que é um "ano"? Para nós, é uma volta completa da Terra ao redor do Sol. Para eles, pode não significar nada. A menos que a gente use a velocidade da luz como régua.

A Régua Universal

O tempo é relativo, mas a velocidade da luz no vácuo é a constante universal. Então, me peguei pensando: se a Terra é o nosso "veículo" pelo cosmos, quanto espaço ela percorre enquanto completa uma volta no Sol, se usarmos o Ano-Luz como unidade?

Para quem gosta dos números (eu pedi uma ajuda para as "instâncias" superiores da IA para não errar a vírgula), a conta é fascinante. A Terra viaja a cerca de 30 km/s em sua órbita. Em um ano, percorremos aproximadamente 942 milhões de km

Parece muito? Pois bem:

  • 1 Ano Terrestre equivale a meros 0,0000995 anos-luz..

  • Para mim, que completo 52 anos em breve, minha "quilometragem orbital" é de apenas 0,0051 anos-luz.

Eu não viajei nem 1% de um ano-luz na minha vida inteira. Somos realmente sedentários cósmicos.

O Sorriso de Raul Seixas

Mas aqui vem o "pulo do gato" que faria o mestre Raul Seixas dar uma gargalhada vitoriosa lá no éter. Eu perguntei: quanto tempo a Terra leva para percorrer, em sua órbita, a distância exata de um ano-luz?

A resposta: aproximadamente 10.045 anos.

Nesse momento, imagino Raul sentado em uma nuvem, jogando uma partida de buraco com Newton, Copérnico e Einstein. Ele solta um valete de copas, olha para o mestre da relatividade e começa a cantarolar: "Eu nasci há dez mil anos atrás..."

O que para nós parece uma eternidade — o tempo de toda a civilização humana moderna, desde o fim da última era glacial até a invenção do Wi-Fi — é exatamente a distância de um ano-luz percorrida pelo nosso planeta. Para a evolução das espécies, é um suspiro. Para o universo, é um piscar de olhos. Mas para o Raul, era apenas o tempo necessário para ele ver que não havia nada nesse mundo que ele não soubesse demais.

Conclusão de Passageiro

No fim, Rocky tinha razão: 186,3 anos não é o suficiente. Nem 10 mil. A matemática nos mostra que o universo é vasto demais para ser medido em dias, e a poesia nos mostra que ele é curto demais para não ser celebrado em cada volta que essa rocha azul dá em torno da sua estrela.

Obrigado, Rocky. Obrigado, Raul. A gente se vê na próxima órbita.



🦸‍♂️ Esqueça o voo ou a invisibilidade: Eu quero o poder do Ostracismo

Epígrafe: "O maior superpoder da atualidade não é salvar o mundo de uma invasão alienígena; é salvar o mundo da próxima vergonha alhei...