Declus

Tentando tapar os buracos na minha cabeça...

sábado, novembro 29, 2025

💾 Relatos do Suporte (Ou Como Ser um Cara Insuportável)

 
Epígrafe: "95% dos problemas de TI são resolvidos reiniciando o equipamento. O resto é o motivo pelo qual estudamos."

O Mistério da Lâmpada Acesa

A tecnologia prometeu automação, mas nos entregou a neurose da conexão. Não há nada mais frustrante do que ver um dispositivo inteligente, como aquela lâmpada conectada à assistente virtual, falhar por um motivo banal (uma variação na eletricidade, um toque indevido na fiação).

A luz fica acessa às três da manhã. A assistente virtual não atende. O que fazemos? Vamos lá, desligamos e ligamos de novo. Voilà! A conexão volta.

Essa simples ação, que resolve a maior parte das falhas eletrônicas, é o mantra de quem trabalha com suporte. Para quem passou anos no atendimento ao público e mais de uma década no suporte de TI, essa verdade é quase um princípio cósmico.

Os Dois Pilares do Suporte

Quem trabalha na área sabe que a rotina se apoia em dois pilares inegociáveis, que parecem irritantes, mas que são cruciais:

  1. "Já abriu o chamado?": Esta não é uma pergunta para irritar o cliente; é uma exigência de processo. É através do chamado que a equipe consegue identificar a demanda real, metrificar a necessidade de readequação de atividades e, se necessário, aumentar o número de pessoas para atender. É o diagnóstico sistêmico que justifica o estudo e a melhoria contínua.

  2. "Já reiniciou?": Essa é a pergunta que, quando respondida com um "Sim, já reiniciei," dá um calorzinho no coração do técnico. A verdade é que 95% das falhas são resolvidas com um reset. Sejam os eletroeletrônicos em casa ou os servidores da empresa, o reboot limpa a memória, encerra processos corrompidos e restaura as funções padrão. É uma medida de segurança inerente à engenharia.

Ou seja, não falamos isso do nada; falamos com a autoridade dos 95%.

O Protocolo do Reset Humano

O mais interessante é que essa regra de ouro se aplica à nossa própria "máquina humana."

Nós somos sistemas complexos, e sob o estresse da rotina (a cobrança do edital, a carga de trabalho, a pressão social), começamos a acumular erros de conexão e vazamentos de memória (fadiga, irritabilidade, falta de foco).

O reboot humano é a nossa medida de segurança. Não se trata de fraqueza, mas de manutenção essencial. O cérebro precisa de um desligar e religar com outra vibe para limpar as conexões corrompidas e restaurar o nosso "padrão de fábrica" de clareza e energia:

  • O Reset Longo: Umas férias para viajar e relaxar, ou até mesmo o isolamento focado em um estudo intenso (que é um reset na rotina social, liberando recursos cognitivos).

  • O Reset Curto: Um simples final de semana de jogos com a família ou os amigos, aquela caminhada despretensiosa, ou a pausa para "ver a grama crescer."

Às vezes, a única coisa que realmente nos falta para sermos produtivos e eficientes não é mais disciplina, mas sim a humildade de aceitar a regra de TI: nós também precisamos de um reset.

E você? Acabou de reiniciar a sua máquina ou está planejando a sua próxima manutenção preventiva?

quinta-feira, novembro 27, 2025

🚀 A Síndrome da Largada (Por Que o Sabor da Ansiedade é Mais Forte que o Sabor da Espera)

 
Epígrafe: "O medo não é de falhar. O medo é de descobrir que o fim da espera não nos trouxe a paz, mas sim a necessidade de agir."

O Paradoxal Medo do "Sim"

Há momentos em nossas vidas que são construídos sobre anos de espera. Aquele edital que saiu depois de uma década, o "sim" da crush para o encontro decisivo, a convocação para a entrevista de emprego dos sonhos. E até mesmo aquele jogo do time do coração (tá, esse aqui causa bem menos estresse hehe)

Nós passamos meses, ou até anos, gerenciando a ansiedade da ausência. Mas, de forma bizarra, o momento em que a oportunidade finalmente se materializa — quando o edital é publicado, o ingresso é comprado ou o contrato está na mesa — a ansiedade explode.

Por quê? Porque a espera é passiva. A Largada é ativa e exige responsabilidade. Todo o peso da expectativa, que antes estava diluído no tempo, agora se concentra no "aqui e agora," ameaçando nos paralisar.

O Peso Invisível da Expectativa

O nervosismo diante de um grande evento não é um sinal de fraqueza; é um sinal de que você se importa profundamente com o resultado.

Afinal, você não está apenas enfrentando uma prova ou um encontro. Você está carregando a soma de todo o tempo investido e a projeção de todo o futuro desejado.

Nesse momento, a mente se torna traiçoeira. Ela tenta nos convencer de que é melhor não tentar a todo custo, para que a fantasia da possibilidade permaneça intacta. Se não fizermos a prova, o sonho de passar ainda existe. Se não formos ao encontro, a chance de um "sim" ainda está lá. A inação se torna uma autodefesa covarde contra o risco da rejeição ou do fracasso.

A Filosofia do "Só Vai e Faz"

O antídoto para a ansiedade da Largada não é a reflexão; é o movimento. É o simples princípio estoico: você controla o seu esforço, e nada mais.

O foco deve mudar radicalmente:

  • Do Fim para o Meio: Pare de focar no resultado (a posse, o casamento, o título) e concentre-se na próxima hora. Foque naquilo que está sob o seu controle imediato: o capítulo que você vai revisar, a pergunta que você vai fazer na entrevista, a calma da sua respiração.

  • A Ação é o Silenciador: O medo existe na ausência de ação. A única forma de silenciar a voz do pânico é inundá-la com a tarefa a ser executada. Vá e faça. O valor da sua jornada está no esforço empreendido, não no placar final.

O Recomeço e a Natureza do Rio

E se não der certo? E se a prova for difícil, o encontro for ruim, ou o seu time não levar o troféu?

Nós temos que encarar uma verdade inegável: a vida é isso.

Se o resultado não vier agora, você tem que tentar de novo. Lembre-se do Rio de Heráclito: tudo flui. A falha de hoje é apenas a água que passou; ela te deixou mais forte e mais experiente para a próxima correnteza.

O fracasso não é a conclusão da sua história; é apenas um ponto no processo. A única maneira de falhar de verdade é recusar-se a tentar de novo, é deixar que a ansiedade vença o seu impulso de viver.

Portanto, respire fundo. O momento que você esperou chegou. Não importa o peso que ele carrega. Você tem que ir e fazer. O esforço, por si só, já é a sua primeira grande vitória.

terça-feira, novembro 25, 2025

🏟️ A Política do Pão e Circo e Por Que Não Gosto de MMA

 
Epígrafe: "O instinto nos força a treinar para a guerra, mas a evolução nos obriga a torcer pela paz."

Do Roteiro ao Sangue Real (O Luto pela Fantasia)

Para quem viveu a era do entretenimento com luvas de cetim, a transição do carisma fantasioso (lembrando-se com carinho das lutas coreografadas do WWE ou de sua versão nacional, Os Gigantes do Ringue) para a violência crua do MMA foi um choque. Lutas como as de Maguila, ainda que reais, pareciam ter um roteiro, um drama. Mas quando o espetáculo se concentra na técnica de infligir o máximo de sofrimento permitido, algo em nós se desliga.

A aversão à dor alheia — seja o sofrimento de um animal na rua, seja o de um besouro virado de costas — é uma bússola moral que, para muitos, se sobrepõe à atração pela competição.

Mas, para entender o apelo contemporâneo, precisamos olhar para os bastidores do poder.

O Circo Moderno e a Crítica do Gênero

A tática do "Pão e Circo", popularizada na Roma Antiga pelo poeta Juvenal, não era um luxo, mas uma estratégia política. Distribuía-se o sustento e espetáculos grandiosos (como as lutas no Coliseu) para manter a plebe ocupada e distraída, evitando a revolta contra a má administração. O princípio é eterno.

A crítica, no entanto, precisa ir além da política e olhar para o seu motor: o contínuo pé de guerra da humanidade parece ser uma consequência da dominância do cromossomo XY nas grandes mesas de decisão. Essa inclinação histórica ao conflito, ao domínio físico e à competição agressiva, perpetua o Circo em todas as eras. Muitos depositam a esperança na evolução da consciência, imaginando um futuro onde talvez a liderança feminina, com sua possível prioridade à cooperação e à empatia, possa finalmente superar o Coliseu.

A Guerra Interna: Força Versus Consciência

O indivíduo moderno, muitas vezes, é uma contradição ambulante. Por um lado, sente uma profunda aversão à violência como entretenimento; por outro, sente o ego inflamar com a validação da força bruta.

É o conflito entre o instinto e a moral. O orgulho sutil de ser chamado para "carregar o peso" no trabalho — o reconhecimento de uma utilidade física ancestral — é a nossa herança genética. Mas essa herança é constantemente confrontada pela consciência que não suporta a dor alheia. É a luta entre o instinto do Guerreiro e a ética do Preocupado.

O Gene que Não Decidiu (Uma Curiosidade Pessoal)

Tentando encontrar alguma pista para essa complexidade interna, o gene COMT — o chamado "gene guerreiro" — acaba sendo consultado. Muitos buscam a ciência para justificar sua natureza: alguns se descobrirão Warriors natos (prosperam sob estresse); outros, Worriers (precisam de calma para focar).

No meu caso, porém, o teste genético revelou um perfil comportamental intermediário. O resultado me colocou exatamente no meio-termo, apto a suportar a tensão, mas também inclinado à calma e ao foco. O DNA, com sua ironia quase de horóscopo, apenas confirmou a contradição: eu sou, geneticamente, a indecisão encarnada.

A Síntese Final e o Treinamento para o Apocalipse

A contradição é, portanto, a minha condição: eu treino minha força para o pior cenário.

Essa atitude final é a síntese mais honesta do meu tempo. O meu não gostar de MMA, ou qualquer forma de violência gratuita, não é fraqueza ou falta de politização, mas sim a prova de que o meu brio está focado não em infligir dor, mas em manter a esperança na evolução, enquanto a força que construímos serve, primariamente, para carregar o próximo fardo — e não para quebrar o próximo osso.

segunda-feira, novembro 24, 2025

🎧 O Eremitismo Mental Produtivo (A Arte de Ligar o Botão Fd-$)

 Epígrafe: "O mundo é como uma notificação irritante: você precisa silenciá-lo para conseguir ler o que está escrito dentro de si."

O Custo da Tilápia e do Namorico Novo

A vida cotidiana é uma série interminável de invasões: o drama da crush que apareceu de namorico novo rouba sua concentração, ou a amiga com inclinação ideológica posta a notícia absurda (e falsa) de que vão proibir a tilápia no Brasil.

Esses eventos têm duas coisas em comum: não estão sob o seu controle e exigem sua energia cognitiva sem dar nada em troca.

O grande segredo da produtividade não é fazer mais; é decidir deliberadamente o que não fazer e o que não pensar. Chega um momento em que você tem que ligar o "foda-se mental" e seguir em frente. Mas como transformar esse impulso de desinteresse em foco prático?

O Princípio Estoico da Autodefesa

A chave está em focar na única coisa que você realmente controla: sua atenção.

  1. O Círculo de Controle: O estoicismo nos ensina a traçar um círculo imaginário:

    • Dentro do Círculo (Seu Foco): O seu estudo para o concurso, a sua caminhada, o seu café preto, o problema que você pode resolver.

    • Fora do Círculo (O Ruído): A opinião política da sua amiga, a felicidade alheia da crush, a incerteza do mercado.

O "foda-se mental" é simplesmente a escolha intencional de não gastar um único segundo de energia com o que está fora desse círculo. É o ato de canalizar a sua mente de "Resolvedor de Problemas" apenas para os problemas que têm solução na sua vida.

  1. Desativar o Advogado da Paixão: Seu cérebro adora discutir e justificar o ruído, ligando o "Advogado da Paixão". Ao invés de debater mentalmente a proibição da tilápia, treine-se para apenas rotular a informação como ruído e dispensá-la sem justificativa. "Isso não é meu problema. Próximo."

Protocolo para o Modo Produtivo

Para ligar o "foda-se mental" de forma produtiva, use um protocolo de transição:

  • A Regra dos 5 Minutos: Quando o drama externo surgir (a notificação, o pensamento intrusivo sobre o ex-namorico), dê-se exatamente cinco minutos para processar a informação. Sinta a raiva, a inveja, a curiosidade. Expirado o tempo, o problema deve ser fisicamente anotado em um papel de "Lixo Mental" e descartado. O foco volta imediatamente para a tarefa interna.

  • O Silêncio Total (O Brio da Leitura): Adote atividades que exigem 100% de presença, como a leitura de um texto denso. A dificuldade da leitura exige tanto foco que não sobra espaço mental para a distração. É uma terapia de imersão que silencia o mundo por necessidade.

  • A Blindagem Física: Use o modo avião, feche a porta, coloque os fones. A atenção é um recurso finito. Proteger o ambiente físico é o primeiro passo para proteger o ambiente mental.

Ligar o "foda-se" é, no fundo, o maior ato de autocuidado e o caminho mais rápido para a produtividade. Não é apatia; é uma disciplina de foco que reconhece: o que é importante não grita; o que grita raramente é importante.


domingo, novembro 23, 2025

🤯 O Brio Mental (Três Páginas de Kant Contra a Preguiça do Século XXI)

 Epígrafe: "Tentar ler um texto difícil é o ato de coragem que a sua mente preguiçosa tenta adiar."

O Desafio Contra a Escravidão Digital

Em um de seus vídeos mais instigantes sobre a excelência humana, o filósofo Clóvis de Barros Filho propôs um exercício de brio (força moral, garra, vigor) que é o antídoto definitivo para a "Síndrome do Intelectual Sem Foco":

O desafio é simples: Chegue em casa, não abra nenhuma rede social, imprima as três primeiras páginas do Fundamento da Metafísica dos Costumes de Immanuel Kant e tente entender.

Parece fácil. Não é. É um teste de resistência mental, pois a mente moderna, acostumada à recompensa imediata das threads e dos reels, entra em colapso diante da densidade do pensamento kantiano.

A vontade de Kant não é dada; ela precisa ser conquistada, e essa conquista é o ato de desenvolvimento pessoal mais puro que existe.

Por Que o Brio se Revela na Leitura Difícil

Ler Kant, aos 20, 50 ou 80 anos, não é sobre se tornar filósofo. É sobre treinar a sua musculatura cognitiva.

O verdadeiro valor da leitura de um texto denso é que ela força o cérebro a:

  1. Negar a Fuga: A sua mente, escrava da Imediatidade, implora por distração. Focar em uma frase que exige releitura e pausa é o ato de rebeldia contra a tirania da dopamina fácil.

  2. Construir o Sentido: O conhecimento fácil é dado. O conhecimento difícil é construído. Ao lutar com a lógica de Kant, você está ativamente reestruturando suas sinapses e aumentando sua capacidade de abstração e resiliência.

O Protocolo do Brio (Como Vencer a Barreira)

Se a sua mente é um "Resolvedor de Problemas" que só liga com urgência, a leitura de Kant deve ser tratada como um problema de engenharia. O texto difícil precisa ser dividido em mini-crises solucionáveis, usando o seguinte protocolo:

  • Subdivida o Desafio: Não tente ler as três páginas de uma vez. Divida-as em parágrafos. O foco deve ser em entender cada pequena parte antes de seguir em frente.

  • Seja um Detetive do Vocabulário: Não pule termos desconhecidos! Anote as palavras ou frases complexas, consulte o dicionário e o contexto. O vocabulário é o alicerce onde a ideia principal se apoia.

  • Crie Contexto Ativamente: Não se limite ao texto. Pesquise o autor, o momento histórico e as referências que ele está utilizando. Entender de onde Kant está falando é fundamental para entender o que ele está dizendo.

  • Releia e Descanse: A leitura atenta não é rápida. Aceite a necessidade de reler e de fazer pausas estratégicas para permitir que o cérebro processe a informação.

O Brio de Tentar (E a Dor na Cabeça)

A primeira tentativa de ler as três primeiras páginas de Fundamento da Metafísica dos Costumes é um evento revelador. É ali que percebemos o quão preguiçoso o nosso cérebro se tornou e o quanto ele nos sabota.

A cabeça dói. Dói porque está trabalhando em um nível que não está acostumada. O cérebro está protestando contra o esforço. Mas essa dor é, paradoxalmente, a prova de que você está crescendo. É o músculo esticando.

Ainda que a primeira tentativa tenha sido apenas uma "inspeção da área", a intenção de retornar é o que importa. O brio não é sobre o sucesso imediato; é sobre a vontade de voltar a lutar contra o que é difícil.

Quem sabe, um dia, após muito treinamento, a gente não leia Kant no original. Em alemão, é claro. Afinal, sonhar alto é de graça, e a gramática é um problema que a gente resolve quando a crise da prova final chegar.


⏳ O Luto Pela Paciência (E a Tirania do Duplo Check Azul)

 
Epígrafe: "Nós trocamos a espera pela ansiedade, e chamamos isso de progresso."

O Mundo que Funciona Sem Resposta Imediata

Para aqueles de nós que viveram o mundo pré-internet (e nos seus primórdios), a rotina era marcada pela Paciência. A cartinha da amiga que se mudou para longe não chegava em segundos; levava dias, semanas. E isso era normal. O noticiário era agendado, a informação era escassa, e a vida funcionava perfeitamente.

Essa lentidão era uma virtude cognitiva. Ela nos dava tempo para processar, tempo para a saudade e tempo para valorizar a resposta quando ela finalmente chegava.

Hoje, vivemos sob o chicote da Imediatidade Obrigatória.

A Tirania do Sinal Visual

A morte da paciência reside nos sinais visuais: os checks azuis. Eles transformaram a comunicação em uma métrica de valor pessoal e social.

  1. A Cobrança da Disponibilidade: Se ao mandar a mensagem você não receber os dois checks imediatamente, algo está errado. A nossa mente dispara a pergunta neurótica: "Como é possível que alguém não me responda imediatamente?" O check azul não é mais apenas um sinal de entrega; ele é um atestado de presença que exige disponibilidade imediata, violando o direito básico de estarmos ocupados, ou pior, de não querermos responder.

  2. O FOMO da Notícia: A pressão social de estar atualizado sobre tudo é insana. "Como é possível que alguém não esteja familiarizado com a última trend?" O conhecimento profundo é trocado pela superfície das tendências. A informação não precisa mais ser relevante, precisa ser instantânea — seja a notícia bombástica do incêndio lá em Xique-Xique, Bahia, ou o último meme postado nos stories do Seu Zé.

O Custo da Velocidade Não Negociada

A ilusão é que a comunicação instantânea nos deu tempo. A realidade é que ela nos roubou a paz cognitiva.

No mundo que "funcionava" devagar, você tinha controle sobre quando permitia a entrada da informação e das demandas externas. Hoje, a porta está sempre escancarada, e a notificação é uma invasão constante.

O FOMO (Fear of Missing Out) não é apenas sobre a informação, é sobre o medo de ser deixado para trás em um trem social que não permite paradas.

A Solução é a Desconexão do Status

A única forma de sobreviver a essa tirania é retomar a virtude que a internet tentou matar: a Paciência Intencional.

Não é sobre desligar o celular para sempre, mas sobre redefinir o valor do tempo. Precisamos aprender a dissociar a nossa importância pessoal dos checks azuis e dos stories alheios.

A vida continua funcionando, mesmo que você decida esperar 24 horas para responder uma mensagem. A beleza da vida, muitas vezes, reside justamente naquilo que não é imediato — a construção lenta, a saudade da espera, e o prazer de responder apenas quando o seu tempo interno permitir.

🌊 A Maldição da Estabilidade (Ninguém Entra Duas Vezes no Mesmo Rio)

 
Epígrafe: "Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra a mesma água, e o próprio ser já se modificou." — Heráclito

O Profeta do Devir e o Terror da Mudança

Heráclito, o "Obscuro" de Éfeso, nos deu uma das metáforas mais cruéis e libertadoras da história: o Rio da Impermanência. A famosa citação não é apenas poética; é um lembrete filosófico de que a única verdade é que tudo flui.

O rio é o símbolo do devir (o vir-a-ser): a água é nova a cada instante, e você, o observador, também já não é o mesmo. O corpo mudou, a experiência amadureceu, a perspectiva foi ajustada.

O problema é que a nossa psique odeia esse rio. Depois de acumular anos de luta e conquistas — sejam elas profissionais, financeiras ou emocionais —, o instinto humano é gritar: "Parem as á águas!"

A Tirania da Segurança e a Idade do Muro

Com a maturidade, especialmente após os 50, a busca pela segurança se intensifica. A gente passa a construir muros ao invés de pontes. Queremos:

  1. Estabilidade de Identidade: "Eu sou assim e não mudo mais."

  2. Segurança de Conhecimento: "Meu método sempre funcionou, não vou aprender a nova tecnologia."

  3. A Fixação Emocional: "Nossas relações precisam permanecer exatamente como estão."

Acreditamos que, ao congelar o ambiente, congelamos o sofrimento e garantimos a paz. Ocorre que o Rio de Heráclito não aceita diques. O mundo, o corpo, as pessoas amadas e o mercado de trabalho continuam fluindo, e a nossa resistência só gera atrito, stress e a dolorosa sensação de estarmos lutando contra a realidade.

O Engano do Recomeço (A Escolha de Fluidez)

A impermanência nos impõe recomeços constantes. Mas o recomeço não é um fracasso; é a estrutura da vida.

A negação do Panta Rhei é, na verdade, uma negação da nossa própria capacidade de rejuvenescimento. Quando a gente se apega à ideia de que o "eu" de ontem é o "eu" de hoje, estamos resistindo à nossa própria evolução.

O sábio não é aquele que consegue parar o rio, mas aquele que se torna fluido como ele.

A verdadeira segurança, portanto, não está na estabilidade externa (o emprego, o dinheiro, o imóvel), mas na maleabilidade interna. É saber que, se tudo ruir, você tem a capacidade de se adaptar e reconstruir, pois o eu que você é hoje já é outro e está mais forte do que o eu que tinha medo.

Aceitar que "tudo flui, nada permanece" é a maior libertação: nos permite viver o presente com totalidade, sem o peso neurótico de tentar congelar o que é, por natureza, movimento.

sábado, novembro 22, 2025

⏳ O Protocolo do Banco de Jardim (A Longa Noite e a Cura do Complexo de Protagonista)

 
Epígrafe: "Lembre-se: você é apenas um homem." (Tradicionalmente sussurrado no ouvido do general vitorioso em Roma, um lembrete eterno contra a arrogância.)

A Voz do Servo e o Complexo de Protagonista

A lenda atribuída a Marco Aurélio (e que ecoa a tradição do triunfo romano) fala sobre a necessidade de um servo sussurrar ao general vitorioso: "Você é apenas um homem."

Esse sussurro não era para humilhar. Era um dispositivo de alteridade forçado, um memento mori que combatia o nosso defeito de fábrica: o Complexo de Protagonista.

Nosso cérebro é programado para que nós sejamos o centro do universo. Nossa dor, nossa luta, nosso despertador. Esquecemos que o motorista de Uber, o colega de trabalho irritado, a vizinha barulhenta — eles são os protagonistas absolutos da própria épica deles, com suas próprias batalhas (provas, filhos, dívidas).

A falta de empatia e alteridade é, simplesmente, a nossa incapacidade de sair do nosso próprio enredo para reconhecer a igualdade de luta na história alheia.

Os Dois Guerreiros da Rotina

Diante da certeza de que "a longa noite vai chegar," a humanidade se divide em dois tipos de guerreiros:

1. O Guerreiro do Piloto-automático

Este é o guerreiro que usa a rotina como um escudo. Acorda com o despertador, toma o café preto, segue a vida. O objetivo dele é evitar a reflexão a qualquer custo.

Ele combate o Tédio de Schopenhauer através da ação incessante e combate o Medo de Ser Livre (Fromm) através da distração (o entorpecimento noturno, a fuga para o drama). Ele nega a mortalidade, não por ser forte, mas por nunca olhar para cima. Ele é eficiente, mas está permanentemente no automático.

2. O Guerreiro do Banco de Jardim

Este é o guerreiro que usa a reflexão como uma ferramenta. Ele reserva o tempo para ver a grama crescer e enfrentar o fato: "um dia, tudo vai acabar."

Ele sabe que não é possível parar todos os dias para refletir sobre o propósito cósmico, mas ele faz a escolha consciente de sentar e internalizar o memento mori. Sua luta é ativa: ele luta para viver de forma significativa apesar da certeza do fim.

A Verdade e o Protocolo

Quem está certo? O que luta na rotina ou o que reflete no jardim?

Não existe uma verdade única. A verdade é que ambos estão lutando. No entanto, a sabedoria reside na escolha.

O Guerreiro do Piloto-automático gasta a vida fugindo da própria mente. O Guerreiro do Banco de Jardim gasta a vida a confrontando.

Admito que sou adepto do Protocolo do Banco de Jardim . É meu momento de alteridade suprema: é onde paro, e tento reconhecer a brevidade da minha história, e então, com essa humildade, tento enxergar o motor de luta que pulsa no peito de cada protagonista ao meu redor.

Da próxima vez que o despertador tocar, lembre-se: não é só mais um dia na sua história. É o ato final de todos os protagonistas que você cruzará. A grandeza não está em ser o centro, mas em honrar as lutas que compartilhamos.

👁️ Liberdade é Pouco (A Inquietação que Ainda Não Tem Nome)

 
Epígrafe: "Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome." — Clarice Lispector

A Tirania da Citação Fácil

Clarice Lispector é a mais citada das escritoras brasileiras na internet. Suas frases curtas, carregadas de melancolia e profundidade existencial, tornaram-se o status perfeito para quem busca parecer profundo. No entanto, sua obra não é sobre frases de efeito; é sobre a Indefinição e a Crise da Identidade.

A frase "Liberdade é pouco" não é um desdém pela autonomia política ou social. É a constatação de que, ao removermos todas as grades externas (a "Liberdade Vendida"), somos confrontados com a gaiola mais complexa de todas: a nossa própria.

A liberdade nos dá o espaço para ser, mas não nos dá o manual de quem ser.

A Insuficiência do "Ser Livre DE"

Nós dedicamos a maior parte da vida adulta lutando pela liberdade de: livre do chefe, livre das dívidas, livre do tédio. Ocorre que, ao conquistar essa "liberdade negativa", a sensação de plenitude dura pouco.

Aí reside o paradoxo: a liberdade só nos prova a insuficiência da nossa própria existência.

Se a vida é um papel em branco e você está livre para escrever o que quiser, o que acontece se você não souber o que escrever?

  • A Crise: A liberdade te exige uma identidade, uma moral, um propósito.

  • O Vazio: Você está livre, mas o vazio continua lá, te olhando.

A Liberdade é o estágio zero. O que Clarice quer é o propósito, a conexão autêntica, o significado que transcende a mera ausência de amarras.

O Mistério Sem Nome (A Busca Pela Indefinição)

"O que eu quero ainda não tem nome." 

É a busca pela Identidade Real.

Nós passamos a vida tentando nos encaixar em nomes: profissional, pai/mãe, concurseiro, amigo, intelectual, etc. Mas a Clarice está nos dizendo que o verdadeiro "eu" habita um território anterior à linguagem.

  • A Identidade Líquida: O que ela busca é o estado puro do ser, aquele momento de indefinição onde todas as máscaras caem. É o misterioso motor interno que não pode ser categorizado em uma tag de Instagram ou em uma descrição de currículo.

  • O Preço da Autenticidade: O medo de ser autêntico é o medo de viver sem nome, sem rótulo, no mistério. A sociedade exige que você se defina; a essência clariana exige que você se dissolva na indefinição.

No fim, a grandeza dessa frase não está na reclamação de que algo falta, mas na celebração do mistério. O que ela quer é tão vital, tão único, tão plenamente humano, que ainda não cabe nas palavras inventadas.

Ser plenamente livre é, portanto, aceitar essa busca incessante e o fato de que, talvez, a coisa mais importante que você é e quer jamais terá nome.

sexta-feira, novembro 21, 2025

🖤 A Tirania do Pêndulo (Por Que a Vida é Tão Ruim e o Tédio Tão Pior)

Epígrafe: "A vida é um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio." — Arthur Schopenhauer

O Profeta do Pessimismo e a Vontade Cega

Em um mundo que insiste em vender a felicidade como um estado de espírito atingível, Arthur Schopenhauer surge como o filósofo que te manda de volta para a cama. Para ele, a existência humana é regida pela Vontade — um impulso cego, irracional e insaciável que nos força a querer, sem propósito.

E é essa Vontade que nos condena ao Pêndulo Existencial. Nossa vida inteira é passada em um movimento incessante entre dois estados de sofrimento:

1. O Lado da Dor: A Vontade Insatisfeita

A dor não é apenas física; é a dor do desejo não cumprido.

Todo querer é, por definição, uma falta. Querer passar no concurso da SEFAZ SP; querer pagar uma dívida; querer o amor de alguém. Enquanto a Vontade aponta para um alvo que você não tem, você vive sob a tensão da Luta.

Este é o lado ativo do pêndulo. É onde há propósito. É onde você se sente vivo, pois está ativamente sofrendo pela sua não-conquista. A dor, neste caso, é o motor: a gasolina do sofrimento.

2. O Lado do Tédio: A Vontade Satisfeita

Eis a tragédia suprema: quando você finalmente alcança o que a Vontade exigia, o sofrimento cessa... e você cai no Tédio.

O Tédio é a morte lenta da alma. É o momento em que a Vontade, momentaneamente saciada, não tem um novo alvo imediato.

É o dia seguinte à posse no concurso; é a segunda-feira após a tão sonhada viagem; é o vazio após a conquista. O Tédio, para Schopenhauer, é a prova de que a vida não tem sentido intrínseco. Quando paramos de lutar, percebemos que não tínhamos para onde ir, e a falta de propósito é um sofrimento ainda mais aterrador que a luta.

O Humor Ácido da Auto-Sabotagem

Se a vida é essa dança inevitável entre a dor da falta e o tédio da saciedade, o que nós, humanos modernos, fazemos para nos mantermos sãos?

Nós nos tornamos mestres em inventar sofrimento para evitar o vácuo do tédio:

  • Gerar Nova Dor: Assumir novas dívidas, começar um novo projeto complexo, entrar em um relacionamento impossível. Precisamos do próximo grande obstáculo para evitar o perigo de ficarmos quietos.

  • O Drama Desnecessário: O tédio existencial é tão grande que procuramos o conflito alheio (o drama nas redes sociais, as fofocas corporativas). É a Vontade buscando um alvo, qualquer alvo, para fingir que está em batalha.

  • O Tédio Enlatado: Consumimos entretenimento incessante (séries, redes sociais) para preencher a lacuna da Vontade satisfeita. É uma negação desesperada do vazio, um esforço constante para manter o pêndulo em movimento, mesmo que artificialmente.

A sabedoria dark de Schopenhauer não reside em quebrar o pêndulo, mas em entender sua mecânica. A felicidade, se é que existe, é um mero e fugaz ponto morto entre o desespero de querer algo e o desespero de não ter mais nada para querer.


⛓️ A Gaiola de Ouro da Liberdade Vendida (O Medo de Ser Erich Fromm)

Epígrafe: "Ser plenamente humano é ser plenamente livre." — Erich Fromm

O Mito da Liberdade Como Recompensa

Nós crescemos sob o mantra de que a liberdade é a maior das conquistas: a liberdade política, a liberdade de expressão, a liberdade de consumo. No entanto, o pensador Erich Fromm (e muitos existencialistas) nos confronta com uma verdade incômoda: a liberdade não é um prêmio; é um fardo.

Fromm, em sua obra clássica O Medo à Liberdade, argumenta que quando atingimos a autonomia, somos tomados por uma angústia existencial tão grande que a maioria de nós prefere, inconscientemente, fugir dela.

O ser plenamente humano é ser plenamente livre, mas essa plenitude exige a coragem de ser autêntico — e é aí que a maioria de nós falha.

Liberdade Vendida vs. Liberdade Real

Para entender por que fugimos, precisamos distinguir o que é a liberdade no marketing e o que ela realmente significa na filosofia.

Tipo de LiberdadeLiberdade Vendida (Negativa)Liberdade Real (Positiva - Fromm)
O que é?Liberdade DE (de restrições).Liberdade PARA (para criar, ser).
Exemplo:Livre para escolher entre 30 marcas de pão; livre da censura.Livre para decidir o seu próprio valor; livre para criar a sua própria moral.
Exigência:Passividade, consumo e conformidade.Responsabilidade radical e ação autêntica.
Resultado:Uma sensação cômoda de autonomia que te deixa no piloto automático.A angústia da escolha que te obriga a ser autor da sua vida.

A Liberdade Vendida é a liberdade que o sistema lhe dá. Ela é segura porque é delimitada. Ela permite que você escolha um produto, um partido, um hobby — mas dentro de um menu pré-aprovado. Essa liberdade nos acalma, mas nos mantém escravos da conformidade.

O Preço de Sartre e a Condenação

O filósofo Jean-Paul Sartre foi mais radical: ele disse que estamos condenados a ser livres.

Se não há Deus ou propósito predefinido, cada uma de nossas escolhas define o que é ser "humano". Se você é livre, não há manual de instruções, não há desculpa, não há "destino" a culpar (como vimos no post anterior de Hume, a razão não pode ser a desculpa).

O medo de Fromm é o medo de Sartre: o terror de que, se somos totalmente livres, somos totalmente responsáveis por quem nos tornamos.

O Medo de Ser Autêntico

A fuga da liberdade acontece quando abrimos mão da nossa autenticidade e nos escondemos:

  1. Na Conformidade: Você adota as opiniões do grupo (o exato oposto da "Síndrome do Intelectual Sem Foco"). Você se torna a média, e isso é seguro.

  2. Na Destrutividade: Você tenta anular o mundo exterior para se sentir no controle (destruindo a liberdade alheia).

  3. Na Autoridade: Você se submete a uma ideologia, religião ou líder forte. Você transfere o fardo da escolha para a "autoridade" e, finalmente, pode relaxar.

Ser plenamente livre, como diz Fromm, é ser plenamente humano: é assumir a totalidade do seu ser, com todos os riscos e angústias. É fazer a escolha mais difícil de todas: a de ser você mesmo, e não o personagem que os outros esperam.

🕶️ O Complexo de Deus Necessário (Por Que Amamos e Odiamos Satoru Gojo)

 


AVISO DE SPOILER: O texto abaixo aborda o destino de Satoru Gojo no mangá de Jujutsu Kaisen.

Epígrafe: "O problema de ser o mais forte é que você é forçado a viver em uma realidade que só existe para você."

O Enigma da Perfeição Irritante

Satoru Gojo é o enigma de Jujutsu Kaisen. Ele é a personificação do Poder Absoluto e, por isso mesmo, o maior catalisador de adoração e antipatia entre os fãs.

A aversão por ele é amplamente justificada: o Complexo de Deus, a atitude debochada em momentos sérios e o poder avassalador que torna as lutas previsíveis. Mas a nossa apreciação (a sua e a minha) nasce de uma lente mais rara: a Alteridade.

Não podemos ter empatia por Gojo, pois jamais estaremos em seu lugar. Mas podemos exercer a alteridade: reconhecer que a sua realidade é fundamentalmente outra.

A Defesa da Arrogância (Uma Questão de Realismo)

O principal motivo para a antipatia é a arrogância. Gojo não tem medo de se autoproclamar o mais forte.

Mas o que é arrogância para nós é realismo para ele. Quando se tem os Seis Olhos (Rikugan) e o Ilimitado (Mukagen), o mundo é percebido de uma maneira que ninguém mais consegue. Sua existência é a de um ponto de ruptura na lógica do universo Jujutsu.

  • O Comportamento: Seu senso de humor sarcástico e a atitude despreocupada são, na verdade, um mecanismo de defesa. Gojo carrega o peso de ser o único capaz de proteger o mundo; o deboche é a única forma de evitar o burnout existencial. Sua frieza calculista é o preço de seu poder; ele não pode se dar ao luxo do desespero.

  • O Juízo de Valor: O fã comum julga Gojo pela régua de um shounen clichê (onde o herói deve ser humilde e esforçado). Mas Gojo não é o esforçado; ele é o ápice genético, o acidente cósmico. Julgá-lo por não ser humilde é como julgar um raio por não ser apenas uma lâmpada.

O Problema do Overpowered (OP)

O poder excessivo de Gojo era o problema e, ao mesmo tempo, o motor da narrativa.

Sua presença ou ausência define os riscos da história. Enquanto ele está por perto, a ameaça é mitigada. Quando ele é selado (o momento de virada do mangá), o mundo desmorona. O autor, Gege Akutami, não podia contar uma história de alta tensão com Gojo permanentemente em campo. Ele era a cheat code que precisava ser removida.

O Desfecho Controversíssimo e Necessário

E aqui chegamos ao grande spoiler e ponto de controvérsia: a morte de Gojo pelas mãos de Sukuna, executada por uma técnica que "cortou o espaço" ao invés de focar no feiticeiro em si.

Houve quem chamasse de "birra do autor" por Gojo ser popular demais. Mas o desfecho era uma necessidade narrativa e lógica:

  1. A Escala de Poder: Não existia uma técnica comum que pudesse derrotar o Mukagen de Gojo. Para matar o OP, era preciso uma solução igualmente OP e metafísica (cortar o tecido da realidade).

  2. A Validação de Sukuna: A morte de Gojo valida, de forma brutal, a ameaça de Sukuna. O antagonista só se torna o rei absoluto se derrotar o único ser que poderia pará-lo.

O desfecho de Gojo é triste, controverso e indigesto, mas é a medida exata de seu poder. Sua história termina onde o mangá precisava que terminasse para que todos os outros personagens tivessem espaço para brilhar e lutar pelo futuro.

No fim, Gojo nos ensinou sobre a alteridade do poder: aceitar que a nossa régua de normalidade não se aplica àqueles que tocam a perfeição.

quinta-feira, novembro 20, 2025

🧠 O Advogado das Paixões (A Ilusão da Racionalidade Segundo David Hume)

 Epígrafe: "A razão é, e deve ser, escrava das paixões." — David Hume

O Mito da Decisão Lógica

Nós fomos ensinados a valorizar a Razão como o juiz supremo, o motor frio e lógico que deve nos guiar. A Paixão (o afeto, o desejo, o impulso) é vista como a força caótica a ser contida.

O filósofo escocês David Hume jogou essa estrutura pela janela. Ele não disse apenas que a razão é escrava das paixões; ele disse que ela deve ser escrava.

O que Hume chama de "paixões" não são apenas ataques de raiva ou luxúria. São toda a nossa motivação: nossos desejos fundamentais, nossas ambições, nossos valores morais e, sobretudo, as nossas vontades.

O cerne da tese é brutal: Nós não usamos a razão para decidir o que queremos; usamos a razão para justificar o que já decidimos querer.

A Razão Como Advogada de Defesa

Se você prestar atenção nas suas grandes decisões, perceberá que a paixão sempre dá o pontapé inicial. A razão entra em cena depois, apenas para fazer o marketing da escolha:

  • Comportamento de Consumo: Você vê um objeto que deseja (a Paixão). Você o compra (o Ato). A Razão, então, trabalha horas extras para justificar a despesa: "Eu precisava dessa ferramenta para o trabalho," ou "Foi um investimento de longo prazo," ou "Eu mereço."

  • Escolhas de Carreira: A Paixão te move para a estabilidade (concurso) ou para o risco (empreender). A Razão, então, monta a planilha de custos e benefícios para provar que o caminho escolhido é o mais sensato.

A razão não gera a vontade de passar na SEFAZ SP; ela apenas calcula a rota, o número de questões por dia e a estratégia para o 28/02. O desejo de uma vida melhor (a Paixão) é quem apertou o botão "iniciar estudo" há 10 anos.

O Perigo da Ilusão Racional

O maior perigo em negar Hume é a hipocrisia.

Quando tentamos convencer a nós mesmos e aos outros de que agimos puramente pela lógica, transformamos nossas paixões (nossos verdadeiros motores) em um inimigo a ser escondido. Isso nos impede de entender por que realmente fazemos as coisas.

A vida não é um silogismo; é um desejo em movimento. E o sábio é aquele que admite que a Paixão é o capitão do navio (ela define o destino), e a Razão é o navegador (ela traça a rota mais segura para chegar lá).

A aceitação da escravidão, nesse caso, é a própria libertação.

📚 A Síndrome do Intelectual Sem Foco (O Vasto Mar de Opiniões Rasas)

 Epígrafe: "A verdadeira inteligência reside na humildade de calar sobre aquilo que você só leu na manchete."

A Cultura da Opinião Obrigatória

Vivemos na era da informação instantânea, mas, paradoxalmente, sofremos do que podemos chamar de Síndrome do Intelectual Sem Foco (SISF).

A SISF é a obsessão cultural por ter uma opinião forte sobre qualquer assunto que surja na rodada, seja ele a política asiática, o último avanço em IA ou a crise econômica do Quênia.

O cenário é sempre o mesmo: a sala de reunião ou a rodada de amigos, onde todos emitem seus vereditos com a mesma eloquência e, crucialmente, com a mesma falta de conhecimento profundo. A pressão de não ser o único a dizer "Não sei" é insuportável.

O Conhecimento Nível Manchete

A Internet, ao invés de nos tornar mais sábios, nos tornou mestres em conhecimento nível manchete.

Nós trocamos a profundidade pela amplitude. Buscamos resumos rápidos, threads de Twitter e podcasts de 15 minutos para montar uma fachada de domínio sobre o tema. Nosso cérebro se enche de soundbites e fatos isolados, mas o esqueleto do conhecimento (a história, o contexto, as metodologias) permanece vazio.

A gente não entende o porquê; apenas repete o quê. E essa facilidade de acesso à informação nos rouba a humildade necessária para a construção do saber.

O Peso de Ser Silencioso

No jogo social da SISF, o silêncio é a fraqueza.

Se você está em uma discussão acalorada sobre juros e inflação e ousa dizer "Eu não tenho profundidade nesse assunto, prefiro ouvir," você corre o risco de ser visto como ignorante, ou pior, como "alheio" ao mundo.

Somos forçados a emitir uma opinião rasa, rapidamente construída a partir do último link lido, apenas para manter nosso status de "cidadão bem-informado". O objetivo não é mais a verdade ou a compreensão; é a performance intelectual. É a validação do grupo.

A Revolução do "Não Sei"

O antídoto para a Síndrome do Intelectual Sem Foco é a humildade radical.

O verdadeiro intelectual moderno não é o que opina sobre tudo; é o que tem a coragem de calar sobre 90% dos assuntos para poder mergulhar fundo e, com integridade, defender os 10% que realmente domina.

  • Rejeite a Obrigação: Livre-se da pressão social de ter um veredito para cada crise do planeta.

  • Corte a Superfície: Troque o consumo de 10 manchetes pelo consumo de 1 livro sobre um tema que você ama.

  • Redefina o Status: A verdadeira marca de uma mente poderosa não é a quantidade de opiniões, mas a qualidade do silêncio que precede o saber.

Em um mundo de informação infinita, a profundidade é a nova rebeldia, e o "Não Sei" é a frase mais honesta e inteligente que você pode pronunciar.

⚠️ Errata: Uma Nota Sobre a Ciência (Ou a Falta Dela)

Aviso Importante: A Síndrome do Intelectual Sem Foco (SISF) não é, e gostaria de reforçar que NÃO É, um termo médico ou psicológico reconhecido pelo DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

Não sou médico, nem psiquiatra. Sou apenas um observador muito sarcástico. O termo foi cunhado por pura falta de opção e preguiça de pesquisar o nome em latim ou grego que, com certeza, já existe para descrever a nossa obsessão em ter opinião sobre o que não sabemos.

Por enquanto, a SISF é apenas uma descrição amigável. 


🤖 A Síndrome do Autopiloto Existencial (A Vida Virou um Check-list e o Eu Sumiu)

Epígrafe: "Nós vivemos para o check-list, e não para a vida. E quando a lista acaba, percebemos que não sabemos mais quem somos."

O Ritmo Implacável da Vida Adulta

A vida adulta é vendida como a liberdade de fazer suas próprias escolhas. Mas, na prática, ela rapidamente se transforma em uma máquina de cumprir tarefas.

Acordar, trabalhar, pagar contas, ir à academia, cuidar da casa, responder e-mails, comprar mantimentos, "ter qualidade de vida" (que também virou um item da lista). É um ciclo sem fim que podemos chamar de Síndrome do Autopiloto Existencial.

Nós nos tornamos um conjunto eficiente de funções, perdendo o contato com o "piloto": o eu que ria alto, que tinha sonhos aleatórios, que se perdia em um hobby sem culpa. A vida vira um grande check-list, e, ironicamente, o item "ser você mesmo" nunca entra na lista de prioridades.

O Fazer pelo Fazer (e a Ausência de Ser)

O perigo do autopiloto é que ele é silencioso. Não há um grande drama. Há apenas uma lenta e gradual erosão da alma.

Você está sempre ocupado, sempre produtivo, sempre "em dia" com as responsabilidades. Mas, no fundo, a pergunta "por que estou fazendo tudo isso?" fica sem resposta.

  • O Trabalho: Você é eficiente, mas a paixão (se ela um dia existiu) sumiu. É só mais um item para riscar.

  • As Contas: São pagas religiosamente, mas você não sabe mais para que serve o dinheiro, além de sustentar o ciclo do autopiloto.

  • Os Hobbies: Viraram mais uma performance, mais uma coisa para "encaixar" na agenda lotada, perdendo a leveza do prazer genuíno.

A gente confunde "fazer" com "viver". E a consequência é que, quando o check-list termina (se é que ele um dia termina), a gente se olha no espelho e pergunta: "Quem é essa pessoa que eu me tornei?"

O Despertar do Piloto (O Retorno do Eu)

O antídoto para a Síndrome do Autopiloto Existencial não é largar tudo e ir para a Tailândia (embora a ideia seja tentadora). É um processo de desaceleração consciente e reconexão deliberada.

  • A Pausa Intencional: Crie momentos de vazio, de não-fazer. Permita-se o luxo da solidão, sem culpa.

  • A Pergunta Radical: Pergunte-se, sem julgamento: "O que eu realmente quero fazer AGORA, que não esteja na minha lista de obrigações ou expectativas alheias?"

  • O Reencontro com o Eu Esquecido: Volte a fazer algo que você amava, não por produtividade, mas por puro prazer. Leia um livro que não seja técnico. Ouça uma música sem fazer mais nada. Olhe para o céu sem o celular na mão.

Viver no automático é seguro, mas é também uma forma de não viver. É hora de desligar o piloto automático, pegar o volante de novo e lembrar quem é a pessoa que está no comando.

🔥 O Efeito Armarinhos Fernando (O Viés da Disponibilidade e a Maldição do Incidente Repetido)

 
Epígrafe: "O nosso cérebro odeia estatística e ama uma boa história. Principalmente se essa história já foi contada três vezes."

O Gatilho Perfeito: Um Incêndio e Três Memórias

Você já teve aquele momento de certeza absoluta que não faz sentido? Recentemente, o noticiário sobre um incêndio no centro de São Bernardo do Campo (SBC) fez a minha mente disparar uma associação automática: "Aposto que foi no Armarinhos Fernando."

Claro, não foi. Mas a minha reação imediata era o que importava. Por que diabos, em um universo de milhares de lojas, o meu cérebro escolheu justamente essa rede?

A resposta estava na memória: na última década, essa rede de varejo foi palco de pelo menos três grandes incêndios amplamente noticiados em depósitos e lojas. A conclusão não era inocente: meu viés pulou imediatamente de "acidente" para a narrativa mais sensacionalista de "golpe no seguro", ignorando a probabilidade de que a causa fosse a quantidade e o tipo de material inflamável que a loja vende.

O Efeito Armarinhos Fernando

Essa associação mental automática tem um nome no mundo da psicologia: a Heurística da Disponibilidade.

Não é um Efeito Mandela Torto (onde a memória é falsa), mas um atalho mental: nós somos levados a julgar a probabilidade de um evento pela facilidade com que conseguimos nos lembrar de exemplos dele.

  • Eventos Memoráveis: Três grandes incêndios em uma rede de lojas em um período curto? Isso é dramático, noticiado e fácil de lembrar.

  • A Associação: Quando surge um novo incêndio na área, o cérebro não faz uma análise estatística complexa. Ele simplesmente puxa o exemplo mais disponível na sua memória: Armarinhos Fernando.

O cérebro é preguiçoso e confia no que é mais fácil de ser evocado. O Efeito Armarinhos Fernando transforma eventos raros e dramáticos em regras, distorcendo a nossa percepção de risco e de realidade.

Casos Semelhantes (A Maldição da Repetição)

O "Viés da Disponibilidade" é universal e se manifesta sempre que a mídia amplifica eventos negativos ou sensacionais:

  • Acidentes Aéreos vs. Acidentes de Carro: Você tem um medo desproporcional de voar após a notícia de um acidente aéreo, mesmo sabendo que a chance de morrer no trajeto de carro para o aeroporto é muito maior. O avião que cai é dramático e disponível na memória.

  • O "Bug" da Empresa: Se uma Empresa X sofre dois escândalos de corrupção em cinco anos, o cérebro conclui que toda a empresa é corrupta, dificultando que você acredite em qualquer notícia positiva sobre ela.

A Lição da Injustiça Cognitiva

O nosso cérebro não busca a justiça estatística; busca a coerência narrativa.

É mais fácil, e dá mais satisfação, concluir que o incêndio é resultado de um plano maligno ("golpe no seguro") do que aceitar a verdade entediante de que a probabilidade de tragédia aumenta com a má gestão de estoque.

O Efeito Armarinhos Fernando é o lembrete de que a nossa percepção da realidade é uma curadoria de manchetes que a nossa mente, preguiçosa, transforma em causa e efeito.

🕰️ O Sussurro das 3:33: Por que paramos de esperar?

  Epígrafe: "Prescinde o dia da conversa da espera de algo melhor" Existem momentos em que a nossa mente parece cansada da nossa ...